Pediatra e Neonatologista em Pelotas

Cólica do lactente: o que é segundo o Roma V (e por que mudou de nome)

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Ilustração de adulto acolhendo bebê no colo, ilustrando o manejo da cólica do lactente segundo o Roma V

Em resumo:

  • A cólica do lactente ganhou nova definição em 2024 com a publicação do Roma V — critérios internacionais de referência para distúrbios funcionais gastrointestinais em pediatria.
  • O que se chamava “cólica infantil” foi renomeado pelo Roma V para “Síndrome do Sofrimento do Lactente” (Infant Distress Syndrome), refletindo a compreensão mais recente de que o quadro envolve mais do que apenas o intestino.
  • A cólica passou a ser classificada dentro dos DGBIs — Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro — reconhecendo que a interpretação de estímulos, o eixo intestino-cérebro e a microbiota participam do quadro.
  • Os critérios diagnósticos mantêm o essencial: episódios de choro intenso, sem causa identificável, em lactente que cresce e se desenvolve bem — sem sinais de alarme que sugiram outra condição.
  • Reconhecer a cólica como benigna, autolimitada e não como falha dos pais é parte do manejo — mas identificar quando o choro sinaliza algo diferente é responsabilidade do pediatra.

Poucas queixas na primeira infância mobilizam tanto o pediatra e a família quanto a cólica do lactente. Bebês que choram por horas seguidas, pais exaustos, avós opinando, redes sociais dando dicas — e no meio disso, uma dúvida legítima: o que está acontecendo? Nos últimos anos, o entendimento científico sobre o tema mudou de forma importante. Em 2024, a publicação do Roma V — referência internacional em distúrbios funcionais gastrointestinais pediátricos — atualizou não apenas os critérios, mas até o nome da condição.

Este artigo apresenta o que é cólica do lactente segundo o Roma V (2024), como o pediatra faz o diagnóstico hoje, o que muda com a nova classificação e o que os pais precisam saber. O conteúdo é informativo e educativo, baseado em consensos científicos recentes — não substitui a avaliação médica individual.

O que é cólica do lactente

A cólica do lactente é caracterizada por episódios de choro intenso, prolongado e aparentemente sem causa identificável em bebês saudáveis, que crescem e se desenvolvem bem. Costuma começar por volta das 2 semanas de vida, atinge o pico entre a 6ª e a 8ª semana e resolve espontaneamente por volta dos 3-4 meses.

Historicamente, a cólica foi definida pela chamada “regra dos três”, proposta por Wessel em 1954: choro por mais de três horas por dia, mais de três dias por semana, por mais de três semanas. Essa definição foi útil por décadas, mas os critérios internacionais evoluíram — culminando no Roma V.

O que é o Roma V e por que ele importa

O Critério de Roma (Rome Criteria, em inglês) é o principal consenso internacional sobre distúrbios funcionais gastrointestinais e da interação intestino-cérebro. Reúne pesquisadores e clínicos de vários países, define critérios diagnósticos padronizados e é atualizado periodicamente.

A quinta versão — Roma V, publicada em 2024 — trouxe mudanças significativas na forma de entender e classificar essas condições em crianças. Duas dessas mudanças afetam diretamente o entendimento da cólica:

  1. A cólica infantil foi renomeada para “Síndrome do Sofrimento do Lactente” (Infant Distress Syndrome, ou IDS)
  2. A classificação deixou de ser exclusivamente por idade e passou a considerar região anatômica e padrão de sintomas

O objetivo dessas mudanças foi reconhecer que o quadro envolve mais do que apenas “cólica no intestino” — envolve a interação complexa entre intestino, cérebro, sistema imune e microbiota. Um novo olhar mais amplo, que reflete o estado atual da ciência.

Por que mudou de “cólica” para “síndrome do sofrimento do lactente”

O nome “cólica” sempre foi problemático. A palavra sugere que a dor vem do intestino — que o bebê está sentindo cólica intestinal, como um adulto que come algo ruim. A verdade é que não sabemos com certeza de onde vem o sofrimento do bebê nesses episódios. Sabemos que ele chora intensamente, que parece desconfortável, mas as causas são múltiplas e ainda não completamente compreendidas.

Chamar o quadro de “síndrome do sofrimento do lactente” tem três vantagens conceituais:

  • Descreve o que observamos (o sofrimento do bebê) sem afirmar o que ainda não sabemos com certeza (a causa exata)
  • Reconhece que o quadro envolve outros sistemas além do intestino — sistema nervoso, sistema imune, microbiota
  • Facilita a conversa com a família — reduz a fixação em “cólica intestinal” e abre espaço para entender o quadro de forma mais ampla

Na prática clínica brasileira, o termo “cólica do lactente” continua sendo usado — porque é o que os pais conhecem e o que a maioria dos pediatras usa. Mas por trás desse nome familiar, o entendimento científico avançou.

Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro (DGBIs)

Uma das mudanças mais importantes da última década foi a reclassificação dessas condições. O que antes se chamava “distúrbios funcionais gastrointestinais” passou a ser chamado de Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro — em inglês, DGBI (Disorders of Gut-Brain Interaction).

A mudança não é só de nome. Reflete o entendimento de que:

  • Intestino e cérebro se comunicam continuamente — não são sistemas separados
  • A microbiota intestinal participa dessa comunicação
  • Estímulos do intestino são interpretados pelo cérebro de formas variadas
  • Estresse, sono, alimentação e ambiente influenciam essa via

Isso é importante porque muda a compreensão dos sintomas do bebê. Não é apenas “gases” ou “digestão ruim” — é uma condição envolvendo a maneira como o organismo em formação percebe e responde a estímulos internos e externos. O tema é aprofundado em Cólica e eixo intestino-cérebro: o que a ciência atual mostra.

Critérios diagnósticos atualizados

Apesar da mudança de nome, os pilares diagnósticos permanecem parecidos. Segundo o Roma V, para caracterizar a síndrome do sofrimento do lactente (a cólica) é preciso que a criança preencha os seguintes critérios:

  • Idade — episódios entre o nascimento e 5 meses de idade
  • Episódios prolongados de choro, agitação ou irritabilidade — que ocorrem sem causa aparente
  • Sem prejuízo do crescimento — o bebê continua ganhando peso, se alimentando, urinando e evacuando normalmente
  • Sem sinais de alarme ou outras doenças que expliquem o quadro

É importante entender: o diagnóstico é feito por exclusão. O pediatra precisa antes descartar outras condições que podem se manifestar por choro no lactente. Isso é responsabilidade médica e não deve ser feito em casa, por conta própria.

Sinais de alarme — quando o choro NÃO é cólica

Nem todo choro persistente é cólica. Existem quadros que exigem investigação e cuja apresentação inicial pode parecer semelhante. Os sinais que sinalizam que o quadro precisa de avaliação médica com prioridade incluem:

  • Baixo ganho de peso ou perda de peso
  • Vômitos frequentes, especialmente com sangue ou biliosos (esverdeados)
  • Sangue nas fezes — mesmo pequenas quantidades
  • Diarreia persistente ou fezes com aspecto muito alterado
  • Febre — em qualquer intensidade em bebê menor de 3 meses (ver Febre na criança: quando ir ao médico)
  • Distensão abdominal importante
  • Choro que não cede em posição alguma, muito diferente do padrão habitual
  • Sonolência excessiva ou irritabilidade extrema fora dos episódios de choro
  • Palidez, coloração acinzentada ou azulada da pele
  • Rejeição alimentar persistente
  • Manifestações alérgicas — lesões de pele, sangue nas fezes, vômitos

Diante desses sinais, procurar o pediatra imediatamente — não esperar consulta agendada. O choro é apenas a manifestação; o pediatra precisa investigar o que está por trás.

Diagnósticos que precisam ser descartados

Antes de firmar o diagnóstico de cólica do lactente, o pediatra costuma pensar em algumas condições que podem se manifestar por choro persistente:

  • Refluxo gastroesofágico patológico
  • Alergia à proteína do leite de vaca — cada vez mais reconhecida como causa de choro no lactente
  • Constipação
  • Infecção urinária — pode se manifestar apenas por choro em bebês pequenos
  • Otite média
  • Fissuras anais
  • Torção de anexos, hérnias encarceradas — quadros cirúrgicos raros mas graves
  • Trauma não acidental — em casos com histórico atípico ou sinais físicos
  • Deficiência de vitamina B12 — em cenários específicos

A avaliação começa pela história clínica cuidadosa e pelo exame físico completo. Nem sempre são necessários exames complementares — muitas vezes o quadro clínico é suficiente para o diagnóstico de cólica.

Por que a cólica acontece — o que se sabe hoje

Uma verdade honesta: mesmo com todo o avanço científico, ainda não sabemos com precisão por que alguns bebês têm cólica e outros não. Existem várias hipóteses, muitas delas provavelmente coexistindo:

Imaturidade do sistema nervoso

Nos primeiros meses, o sistema nervoso do bebê está aprendendo a filtrar estímulos. Alguns bebês parecem processar mais intensamente o que ocorre no próprio corpo — gases, movimentos intestinais, sensações digestivas. Essa hipersensibilidade a estímulos internos pode explicar parte dos episódios.

Imaturidade da microbiota intestinal

A microbiota do lactente ainda está se estabelecendo. Estudos mostram que bebês com cólica têm padrões de microbiota diferentes dos bebês sem cólica — menor diversidade bacteriana e menor quantidade de certas espécies benéficas. Esse achado é a base para o interesse em probióticos, tema abordado em detalhe no artigo sobre o eixo intestino-cérebro.

Alteração da comunicação intestino-cérebro

Estímulos gerados no intestino chegam ao cérebro por diferentes vias. Se essa comunicação está “amplificada” ou desregulada, o bebê pode interpretar sensações normais como desconforto. É esse conceito central que motivou a reclassificação da cólica dentro dos DGBIs.

Fatores ambientais e emocionais

Ambientes mais estressantes, superestimulação, pais muito ansiosos, sono irregular — todos parecem influenciar a intensidade dos episódios. Não são a “causa” da cólica, mas modulam o quadro.

Alergia alimentar em uma minoria

Em uma parcela dos bebês com cólica intensa e prolongada, a alergia à proteína do leite de vaca aparece como causa subjacente. O pediatra investiga esse cenário quando o quadro é atípico ou vem associado a outras manifestações.

Como se manifesta na prática

Os episódios de cólica têm um padrão que costuma ser reconhecível:

  • Horário — muitas vezes no fim da tarde ou início da noite (a chamada “hora da cólica”)
  • Choro intenso, inconsolável — o bebê não se acalma facilmente com o colo ou com a mama
  • Corpo tenso — bebê estica as pernas, arqueia as costas, cerra os punhos
  • Face avermelhada — pelo esforço do choro
  • Duração variável — de minutos a horas
  • Entre os episódios, o bebê está bem — mama, dorme, interage normalmente

É esse padrão de “bem entre os episódios” que reforça o diagnóstico de cólica e diferencia de quadros mais preocupantes, em que o bebê fica alterado o tempo todo.

O que os pais precisam saber

Alguns pontos importantes para os pais que enfrentam a cólica:

  • A cólica é autolimitada — resolve espontaneamente em torno dos 3-4 meses
  • Não é culpa dos pais — não é causada por “leite fraco”, nervosismo materno ou erro de criação
  • Não indica que o bebê tem alguma doença ou que vai desenvolver algo grave
  • O cansaço dos pais é real e legítimo — pedir ajuda, revezar, cuidar do sono é parte do manejo
  • Se a família não consegue acalmar o bebê em algum momento, é seguro colocá-lo em local seguro (berço), sair um minuto para respirar e voltar — melhor isso do que reagir mal por exaustão

O pediatra que acompanha o bebê em consultas de puericultura regulares conhece o histórico e responde com mais precisão. Teleconsulta com pediatra pode complementar quando a dúvida é sobre o padrão do choro e a família precisa de orientação sem sair de casa.

Tabela: cólica × outras causas de choro

Característica Cólica típica Investigar outra causa
Ganho de peso Preservado Baixo ou perda
Entre episódios Bebê bem, interage Irritado, sonolento, alterado
Idade de início 2 semanas a 3 meses Antes ou depois desse intervalo
Vômitos Ausentes ou apenas regurgitação Frequentes, biliosos, com sangue
Fezes Normais Com sangue, muco, diarreia persistente
Sinais alérgicos Ausentes Lesões pele, sangue fezes, vômitos
Padrão do choro Consistente, previsível Mudança abrupta do padrão

Perguntas frequentes

Todo bebê que chora muito tem cólica?

Não. O choro persistente pode ter várias causas — cólica é uma delas, mas o pediatra precisa descartar refluxo, alergia alimentar, infecções, entre outras condições. Diagnosticar cólica em casa, sem avaliação médica, pode mascarar quadros que precisam de tratamento.

Meu leite pode estar causando a cólica?

Na esmagadora maioria dos casos, não. “Leite fraco” ou “leite forte” não existem como conceitos científicos. Em uma minoria específica de bebês, pode haver alergia à proteína do leite de vaca — e nesse caso o pediatra orienta como conduzir. A regra geral é manter o aleitamento materno em livre demanda.

Bebê com cólica precisa mudar a fórmula?

Não como conduta padrão. Trocar fórmula por iniciativa própria é comum, mas raramente resolve — e pode atrapalhar. A troca só é indicada quando o pediatra investiga e identifica causa específica, como suspeita de alergia à proteína do leite de vaca.

Se meu bebê chora muito, ele vai ter algum problema no futuro?

Não. A cólica típica é autolimitada e não deixa consequências no desenvolvimento. Bebês que tiveram cólica crescem normalmente, se desenvolvem normalmente e não têm risco aumentado de problemas gastrointestinais na infância maior.

É verdade que o Roma V mudou o nome da cólica?

Sim, em nível científico. O Roma V (2024) renomeou o quadro para “Síndrome do Sofrimento do Lactente” (Infant Distress Syndrome). O nome “cólica” ainda é o usado no dia a dia entre pediatras e famílias no Brasil, mas o entendimento por trás dele evoluiu — agora se reconhece que envolve o eixo intestino-cérebro e a microbiota, não apenas o intestino.

Quando a cólica costuma passar?

Espontaneamente, entre 3 e 4 meses na maioria dos casos. Alguns bebês melhoram um pouco antes, outros logo depois. A resolução costuma ser progressiva — os episódios ficam menos intensos e menos frequentes ao longo de algumas semanas.

 


Sobre a autora

Dra. Amália Saavedra (CRM 17522-RS | RQE 7782) é médica pediatra e neonatologista com mais de 30 anos de atuação, especialista em Aleitamento Materno, Neonatologia e Puericultura. Atende em consultório particular em Pelotas – RS e por teleconsulta em todo o Brasil, com formação internacional em aleitamento materno e saúde mental perinatal pelo IEPERINATAL (Espanha).

Foi chefe da UTI Neonatal do Hospital Escola da UFPel/EBSERH (2014–2019) e do setor de Neonatologia da Santa Casa de Pelotas (2006–2010). É co-autora do Tratado do Especialista em Cuidado Materno-Infantil com Enfoque em Amamentação (Guanabara Koogan, 4ª e 5ª edições) e oferece consultoria de amamentação presencial e online. Conheça a trajetória da pediatra e neonatologista em Pelotas Dra. Amália Saavedra.

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